Orgulho
Provérbios 3:5-7 | NTLH“Confie no Senhor de todo o coração e não se apoie na sua própria inteligência. Lembre de Deus em tudo o que fizer, e ele lhe mostrará o caminho certo. Não fique pensando que você é sábio; tema o Senhor e não faça nada que seja errado.”
Introdução
O primeiro pecado não foi desobediência.
No artigo do mês passado, o desafio foi confrontar a nossa própria imagem de Deus: será que a versão que temos Dele vem das Escrituras, ou foi moldada pela cultura à nossa volta? E vimos que a verdadeira revelação sobre quem Deus é nos leva sempre ao mesmo lugar: ao arrependimento, a prostrarmo-nos diante da Sua majestade.
Este mês, olhamos para dentro, para a nossa própria natureza caída, e para a dependência de Deus que ela exige, se é que queremos viver uma vida que não se molda ao padrão deste mundo.
E para isso, temos de voltar ao início, ao primeiro pecado. Aquele que normalmente resumimos numa palavra: desobediência. Comeram do fruto proibido, ponto final.
Só que, se lermos o relato de Génesis com mais atenção, a desobediência foi o ato. Não foi a raiz. Antes de qualquer fruto chegar à boca, já havia algo instalado no coração. E esse algo tem nome: orgulho.
As duas árvores
Há um detalhe em Génesis 2 que muitas vezes ignoramos:
“E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida: e a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal.” Génesis 2:9 (ARC)
A árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal estavam as duas no meio do jardim. Lado a lado, ao alcance da mesma mão.
Deus não escondeu a árvore da vida, não a pôs longe, nem a protegeu com distância. Estava ali, disponível, mesmo ao lado da outra. Se Adão e Eva tivessem comido dela em vez da árvore proibida, viveriam para sempre, mas continuariam sem o conhecimento do bem e do mal. Continuariam dependentes e a precisar de Deus para saber o que é certo e errado. O problema nunca foi a curiosidade sobre o bem e o mal. O problema foi a recusa da dependência.
Um padrão muito mais antigo
Muito antes do jardim, a mesma coisa já tinha acontecido nos céus.
“Subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.” Isaías 14:14 (ARC)
É assim que Lúcifer se descreve, antes de se tornar Satanás. Repara que ele não diz "desobedecerei". Diz "serei semelhante ao Altíssimo". O que ele queria não era simplesmente quebrar uma regra. Era ocupar um lugar que não lhe pertencia, ser como Deus, sem ser Deus.
E foi esse mesmo truque que usou no jardim:
“Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.” Génesis 3:5 (ARC)
Sereis como Deus. É a mesma promessa vazia que já o tinha derrubado. Satanás não inventou uma tentação nova para Eva. Ofereceu-lhe a mentira que já conhecia bem.
O que vem antes do orgulho
Mas há uma pergunta que precisa de resposta antes de falarmos de orgulho: como é que uma promessa tão obviamente vazia se tornou convincente?
A resposta está um passo atrás, quase invisível: a dúvida.
Antes de Eva desejar ser como Deus, teve de duvidar de Deus. Duvidar da Sua bondade. Duvidar se aquela instrução, no fundo, era mesmo para o bem dela. Foi essa dúvida que abriu espaço para a proposta da serpente parecer razoável, até boa.
Salomão em Provérbios 3 nos alerta:
“Confie no Senhor de todo o coração e não se apoie na sua própria inteligência.” Provérbios 3:5 (NTLH)
Confiar em Deus e apoiar-se na própria inteligência não resulta. Quando a confiança em Deus vacila, o espaço não fica vazio. É imediatamente ocupado pela confiança em nós mesmos. E confiança em nós mesmos, colocada onde só Deus deveria estar, chama-se orgulho.
A sequência real é, por isso, mais precisa do que costumamos contar: primeiro veio a dúvida sobre o caráter de Deus. Dessa dúvida nasceu a confiança em si mesma. Dessa confiança nasceu o desejo de ser como Deus. E só depois, como consequência e não como causa, veio o gesto de comer do fruto.
A desobediência foi o sintoma. O orgulho foi a doença.
Sábia aos seus próprios olhos
“Não fique pensando que você é sábio.” Provérbios 3:7 (NTLH)
Este versículo descreve com precisão exata o que aconteceu no jardim. Eva não caiu por acreditar em algo absurdo. Caiu porque, naquele momento, confiou mais no seu próprio julgamento do que na Palavra que Deus já lhe tinha dado.
“E vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu.” Génesis 3:6 (ARC)
Boa para comer. Agradável aos olhos. Desejável para dar entendimento. Três julgamentos, feitos com os seus próprios olhos, à revelia do que Deus já tinha dito. Pensar que somos sábios pelos nossos próprios critérios foi exatamente aquilo que Provérbios nos avisa para nunca fazermos.
E, se formos honestos, este não foi um erro exclusivo de Eva. É o mesmo padrão que se repete sempre que decidimos que o nosso entendimento sobre o que é bom, sobre o que faz sentido, sobre o que "certamente" Deus quereria, pesa mais do que aquilo que Ele já revelou.
A recusa da dependência
O pecado, na raiz, não é sobre regras quebradas. É sobre uma relação de dependência que decidimos recusar.
Deus não colocou as duas árvores lado a lado por acaso. A árvore da vida representava uma vida sustentada por Ele, dependente para sempre da Sua glória. A árvore do conhecimento representava a possibilidade de decidir, por conta própria, o que é certo e errado, sem precisar perguntar a Deus.
O orgulho é isto, no fundo: a recusa de continuar dependente, mesmo quando a dependência é o próprio caminho da vida.
E é este o convite de hoje: olhar para as áreas da nossa vida onde, tal como Eva, temos preferido confiar no nosso entendimento à confiar em Deus. Onde temos decidido, com os nossos próprios olhos, o que nos parece bom, mesmo quando isso contradiz o que Ele já disse.
Um inventário para hoje
Antes de continuares, pára e pergunta-te com honestidade:
Onde é que, ultimamente, tenho confiado mais no meu entendimento do que na Palavra de Deus?
Há alguma área da minha vida em que decidi, com os meus próprios olhos, o que é bom, ignorando o que Deus já revelou sobre isso?
A minha dificuldade em obedecer vem de não saber o que Deus quer, ou de duvidar se o caminho d'Ele é mesmo o melhor?
Estas perguntas não existem para causar vergonha. Existem para revelar a raiz, porque só tratando da raiz é que melhoramos o fruto.
Conclusão
O primeiro pecado não começou com uma mordida. Começou com uma dúvida que abriu espaço para o orgulho, e um orgulho que se vestiu de desejo de ser como Deus.
O padrão não mudou. Continuamos tentados a confiar mais em nós mesmos do que em Deus. A decidir, com os nossos próprios olhos, o que nos parece bom. A querer ocupar, ainda que de forma subtil, um lugar que só a Deus pertence: o de decidir o que é certo e errado nas nossas próprias vidas.
Mas Provérbios 3 não fica só no diagnóstico. Aponta também o caminho de volta: confiar de todo o coração, lembrar-nos de Deus em tudo o que fazemos, deixar de pensar que somos sábios pelos nossos próprios critérios.
Se hoje reconheces que, como Eva, tens preferido o teu entendimento à confiança em Deus, este é o momento de voltares. Não precisas de resolver tudo sozinho antes de regressares. Precisas apenas de reconhecer, com sinceridade, que o teu caminho não substitui o d'Ele. Podes simplesmente dizer:
“Deus, reconheço que muitas vezes confiei mais em mim mesmo do que em Ti. Que decidi com os meus próprios olhos o que me parecia bom, mesmo quando isso contradiz a Tua Palavra. Arrependo-me do orgulho que me fez duvidar da Tua bondade. Escolho confiar em Ti de todo o coração, e não apoiar-me na minha própria inteligência.”
E se já caminhas com Ele, talvez este seja o momento de olhar, com humildade, para onde o orgulho ainda se disfarça: de bom senso, de opinião própria, de "eu sei o que é melhor para mim".
A árvore da vida continua disponível. E continua a significar a mesma coisa: uma vida inteira dependente de Deus. É precisamente essa dependência, e não a autossuficiência, que Provérbios chama de sabedoria.
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